Crédito: Instituto Perpetuar

Texto de Keyse Valadares*, com revisão de Daniel Nardin e imagens do acervo do Instituto Perpetuar e vídeo de Ruthelly Valadares. Esta reportagem integra uma iniciativa de valorização e disseminação de histórias por comunicadores das comunidades que integram a Rede Conexão Povos da Floresta, numa parceria com o Amazônia Vox. 

Na comunidade quilombola Oxalá de Jacunday, entre igarapés e ramais de terra batida, uma pequena casa de madeira chama a atenção pelo colorido vibrante e a movimentação de crianças e adolescentes. Ali, a estrutura física é mais que um centro que reúne livros e serve de referência para os mais novos. O próprio nome escolhido já diz muito: a Quilomboteca Osvaldina Valadares é uma iniciativa que usa a educação para valorizar saberes e fazeres quilombolas, fortalecendo o legado vivo na comunidade dos ensinamentos de uma de suas matriarcas.  O espaço foi inaugurado em 2019, sendo a primeira biblioteca comunitária do Território Quilombola de Jambuaçu, no município de Moju, no nordeste paraense.

A neta Samilly Valadares, é uma das responsáveis pelo espaço e explica que a quilomboteca vai além dos limites do espaço físico da pequena casa. “É continuidade, é uma tecnologia ancestral de educação, é palco de memória, afeto, uma identidade que pulsa ancestralidade”, afirma.

Samilly Valadares, neta de Dona Perpétua e idealizadora e presidente do Instituto Perpetuar. Crédito: Acervo Instituto Perpetuar

A programação do espaço e sua manutenção é uma das ações do Instituto Perpetuar, que tem Samilly como idealizadora e presidenta. O nome do instituto é também uma maneira de reviver e homenagear a sua avó, que chamava-se Osvaldina, mas era conhecida mesmo como Dona Perpétua, quase como antecipando o quanto seu legado segue permanente – ou perpétuo – na comunidade. O instituto é uma organização quilombola que trabalha o fortalecimento das identidades e ancestralidades quilombolas por meio da educação, da cultura, da arte, do clima e comunicação.

A quilomboteca recebe diariamente as crianças da comunidade, mas também adolescentes, jovens e universitários. “É um espaço que busca valorizar a literatura afro-brasileira e as narrativas quilombolas, acima de tudo”, reforça Samilly.

Nascida na comunidade quilombola de Conceição do Mirindeua, Dona Perpétua mudou-se para a comunidade Oxalá de Jacunday. Foi ali que criou raízes e casou-se com Raimundo Valadares e juntos formaram família. “Daquelas onde o amor não falta, que fazem um barulho dos bons, oito filhos, doze netos, três bisnetos, alguns ela conheceu, outros não, mas passou a bênção de uma geração para outra”, relembra a neta Samilly.

Dona Perpétua foi mãe, avó, bisavó, agricultora e griô, termo utilizado para aqueles que detém a memória e difunde tradições e ensinamentos. “Ela ancestralizou em 2010, mas manteve seu legado vivo e aceso como as chamas de uma lamparina”, comenta Samilly. Mesmo sem acesso a livros e educação formal, aprendendo a escrever o próprio nome com a filha caçula Rosely Valadares, ela transmitia saber através das histórias dos mais antigos, da floresta, da roça, do tempo de plantar e a sabedoria de se “saber escutar o que a terra nos ensina”, lembra Samilly.

Do território onde cultivava açaí e mandioca, semeando também futuros e imaginação aos mais novos, nasceu algo que ela não chegou a imaginar, que é a quilomboteca. “Ela conhecia e transmitia as histórias que importavam, e sabia principalmente, que suas filhas precisavam estudar, que a educação era fundamental para fortalecer o seu lugar”, afirma Samilly. Nesse sentido, a quilomboteca reforça a memória daquilo que Dona Perpéta mais fazia: contar histórias que fortalecem identidades.

A casinha de madeira pintada em cores vivas, toda colorida, fica na curva do ramal, na beira do igarapé. Antes, a construção pertenceu a Rildo Valadares e Rilma Valadares. Pouco tempo depois de inaugurada, a quilomboteca teve de fechar as portas por conta da pandemia de COVID-19. Quando a pandemia passou, o Instituto Perpetuar não conseguiu reabrir para a comunidade, pois o tempo sem manutenção impactou na madeira e na pintura do espaço. A quilomboteca, porém, não parou: se reiventou e virou itinerante. 

Casa da primeira sede da Quilomboteca, que precisou fechar durante a pandemia e aguarda reforma para receber os visitantes. Hoje, a quilomboteca é itinerante e funciona provisoriamente no escritório da associação de moradores. 

Passou a levar histórias e projetos para as escolas e outras comunidades, até com ações na Universidade Federal do Pará (UFPA), em Belém. Entre as iniciativas, relembra Samilly, estavam o “Quilombolê de Férias”, o Circuito “Aquilombaí”, oficinas de teatro, contação de histórias e palhaçaria. Deixou o espaço físico, mas ocupou outros em diferentes lugares. Em novembro de 2024, a comunidade queria novamente um espaço para servir de base para a quilomboteca e o próprio escritório da associação atendeu esse objetivo, ainda que de forma temporária. “É ali que hoje temos esse espaço multicultural de brincadeiras, de democratização do acesso à leitura, as trilhas de saberes das letras e da terra”, celebra Samilly.

O contexto que gerou a Quilomboteca 

A quilomboteca nasce da luta das mulheres de Jacunday por uma educação que respeite seus saberes e modos de vida. A comunidade fica distante mais de 80 quilômetros da cidade de Belém, através da Rodovia dos Quilombolas, uma via que liga as quinze comunidades do território Quilombola de Jambuaçu, no município de Moju. 

Jovens e crianças durante uma das atividades na atual sede da biblioteca, que funciona de forma temporária no escritório da associação de moradores.

É nesse sentido de reforçar uma educação que valorize o território que está também no centro dos propósitos do Instituto Perpetuar. “Ele nasce da inquietação acerca da educação não contextualizada à realidade quilombola”, explica Samilly.

Segundo ela, as comunidades quilombolas de Jambuaçu travam uma luta há décadas pela efetivação da Educação Escolar Quilombola como modalidade de ensino. “As escolas no território não são reconhecidas como quilombolas, não têm Projeto Político Pedagógico nem Currículo Escolar Diferenciado. O município não tem Secretária de Igualdade Racial e não dialoga com as comunidades sobre políticas de educação”, destaca.

A cobrança tem respaldo na legislação. A resolução do Conselho Nacional de Educação 08/2012 estabelece que a Educação Escolar Quilombola deve desenvolver-se com “proposta pedagógica própria, respeitando a especificidade étnico-cultural de cada comunidade”. Já a Lei Federal nº 10.639/2003 obriga o ensino de história e cultura afro-brasileira em todas as instituições de ensino fundamental e médio, públicas e privadas. 

Porém, a teoria, na prática, é outra. Mais de 70% dos municípios brasileiros não cumprem a lei e o ensino da cultura e história afro-brasileira é praticamente inexistente no país. “A lei completou 22 anos em 2025, mas na prática as escolas não são reconhecidas como quilombolas, o currículo não dialoga com a realidade das crianças. É preciso vontade política, é preciso investimento, é preciso entender que educação quilombola não é favor, é reparação histórica, é direito constitucional, é compromisso do Estado brasileiro”, afirma Samilly. 

Diante dessa ausência, as netas e filhas de Dona Perpétua criam a própria resposta, e seguem fazendo o que ela ensinou, perpetuando histórias. “Quando vejo as crianças aprendendo e se encantando com as histórias, sinto que a presença da minha mãe continua viva entre nós, inspirando novas gerações e fortalecendo a nossa identidade”, diz Rosely Valadares, sua filha. 

Simbolicamente, a lamparina em que Dona Perpétua contava as histórias segue acesa, mesmo que agora seja na luz dos olhos das netas construindo sonhos. “É uma continuidade de amor, de uma história viva. É mais que biblioteca, é espaço de afirmação, de pertencimento, de aquilombamento”, diz Rilma Valadares, outra das filhas de Dona Perpétua. 

Outra filha, Renê Valadares, também vê um pouco de sua mãe e o carinho com a comunidade quando olha para a quilomboteca cheia de crianças e adolescentes, com sorrisos, brincadeiras e rodas de contação de histórias com os mais idosos. “Quando eu olho para a Quilomboteca e estou lá, é como se ela estivesse ali com a gente, caminhando com a gente, nos direcionando a seguir com esse trabalho lindo”, afirma.

*Keyse Valadares é neta de Osvaldina Valadares, a Dona Perpétua. É comunicadora e integra a comunidade quilombola Oxalá de Jacunday, uma das que fazem parte da Rede Conexão Povos da Floresta.A cobertura especial do Amazônia Vox na COP30 tem o apoio da Fundação Itaú, Roche e Tereos.

Confira a reportagem no site da Amazônia Vox

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *